segunda-feira, 20 de outubro de 2008

FOTOBIOGRAFIA - Carlinhos Alcântara



CONVITE


FOTOBIOGRAFIA com o fotógrafo José Wagner apresentando a fotografia de Carlinhos Alcântara.


O IFOTO apresenta dia 21 de outubro de 2008 (terça-feira), às 19h, mais uma FOTOBIOGRAFIA, desta vez mostrando o trabalho do fotógrafo Carlinhos Alcântara.


FOTOBIOGRAFIA
Local: IFOTO
Data: 21/10/2008
Horário: 19h
Informações: (85) 3254.6385


COMO ME TORNEI FOTÓGRAFO
Carlinhos Alcântara


Descobri a fotografia quando eu tinha uns 16 anos, por volta de 1971 em Nilópolis no Rio de janeiro, onde eu morava. Uma máquina de plástico de nome Flika foi colocada em minhas mãos para que eu pudesse fazer minhas descobertas. Eu fiquei todo contente pensando que era uma excelente câmara. O que eu queria mesmo era fazer fotografia, aprender a "bater foto". Aos poucos eu fui fazendo fotos de meus irmãos que eram menores e fazia foto até de cachorro na rua e avião que passava. Eu ficava sempre com a máquina na mão, nada escapava aos meus olhos.

E assim fui tocando, gastando muitos rolos de filmes 120, mas nunca freqüentei sequer um curso de fotografia. Cada vez mais fui aprendendo sobre enquadramento, mas a tal Flika não me oferecia nenhum recurso. Um dia um amigo me trouxe uma Olympus Pen 35mm, que dobrava o número de chapas de 36 para 72 fotos e assim eu podia fazer mais fotos do que quando usava os rolos de filmes 120 da Flika.

Essa brincadeira foi interrompida no dia 15 de abril de 1972, quando um acidente mudou completamente a minha vida. Fiz uma viagem para o interior do Ceará para conhecer uns parentes quando um mergulho mal dado num rio me fez sofrer um acidente medular que tirou todos os movimentos do corpo. Tornei-me tetraplégico. O médico que me atendeu inicialmente no Ceará disse que eu teria que me conformar, fazer uma fisioterapia e ter muita paciência para enfrentar uma nova experiência de vida que começava acontecer. Assim mesmo, após o desânimo inicial, comecei com as massagens e alguns exercícios sempre pensando muito em minhas fotos e meus amigos. Meu maior conforto de vida foi dado por minha mãe. Suas orações e a dos amigos parecem que foram escutadas por Deus.

Fui transferido para Brasília para o Hospital Sarah, o maior centro de reabilitação do país, e a minha vida mudou. Comecei meu tratamento fisioterápico e sabia que tinha muito que fazer, pois queria muito recuperar meus movimentos perdidos. Passei dois anos neste centro e com muito esforço eu consegui recuperar os movimentos dos meus braços. Durante esse período no SARAR, algo que eu tinha deixado para trás, lá no Rio de janeiro, me chamou atenção. Todos os dias pela manhã minha enfermaria era invadida por médicos com suas possantes CANON, MINOLTA E PENTAX. Eu nunca tinha visto em minha vida tanta sofisticação em câmaras fotográficas. Eram todos os cirurgiões que faziam fotos antes e depois do ato cirúrgico. Eu estava sendo estimulado a reaprender a fotografar e descobri que tinha um laboratório fotográfico no SARAH. Fiz amizade com o fotógrafo do hospital chamado Carlos e mostrei o um interesse pela fotografia. Com total apoio do Diretor Presidente do SARAH, Dr. Campos da Paz, passei a freqüentar o laboratório depois da minha fisioterapia lembrando bem que nesta época eu vivia deitado numa maca que era meu transporte oficial - ainda não podia sentar. Observando deitado o trabalho do laboratório, eu comecei a aprender como se revelava filmes e como fazia as ampliações em branco e preto. Confesso que eu nunca tinha entrado em um quarto escuro.

Quando eu comecei a sentar na cadeira de rodas, passei então a fotografar com uma maquininha Kodak Argentina fazendo fotos dos colegas de enfermaria e também dos jardins do hospital. Até que um dia veio o fotógrafo do jornal Zero Hora, chamado Roni Paganella, que era paraplégico e mesmo assim ainda fotografava e se internou no SARAH.

Aí pensei: se ele pode fazer fotos sentado porque eu também não posso? Ficamos bons amigos. Ele tinha uma Pentax, mas naquela época eu não podia ainda segurar uma máquina tão pesada para mim, mas ele me ajudou muito e me encorajou. Às vezes ele queria deixar a sua máquina comigo mas não dava.

Fui adquirindo muito conhecimento até que tive alta e fui para minha casa. Lá eu montei meu primeiro laboratório. Também consegui comprar minha máquina, uma Yashica TI.35. Passei a fotografar as pessoas mais próximas assim eu fiz meu retorno à fotografia. Comprei um tanque fácil de manusear e passei a fazer minhas revelações. Assim que chegava logo corria para revelar os meus filmes preto e branco. Daí não parei mais de fotografar, e até hoje estou fazendo o que mais gosto. Só uso equipamento auto focus, pois é mais fácil de manusear e mais leve.

Trinta anos depois, a fotografia cada vez mais corre no meu sangue, 24 horas por dia. Consegui vencer minhas dificuldades, posso fotografar e me sentir gratificado em poder mostrar meus trabalhos.


O Quarto ainda está intacto
Por Natércia Rocha
O quarto ainda está intacto.
Como a última vez, na madrugada de 31 de agosto de 2004, quando Carlinhos Alcântara atravessou para o outro lado do rio.
Três anos após sua morte, recolhidos na sala simples, do bairro Jangurussu, em Fortaleza, Ceará, os sobrinhos que cresceram sob as lentes do tio "que tinha o melhor amor do mundo" ainda olham, cabisbaixos, para o cômodo fechado ao lado.
Entre risos sutis e profundos silêncios, Andresson e Andressa, ambos de Alcântara, sussurram o instante de alegria:
"era um sonho dele publicar o livro".
O adolescente imita a pose de anos atrás.
A menina revela um certo gosto pela fotografia.
E relembram instantes simples do passado, doravante compartilhados com o mundo, em elegantes retratos de vidas reais.
Universo de imagens no limite do entorno.
No quarto, em preto e branco, a cama alta vazia, uns sapatos trocados e a poeira do tempo que ultrapassou as brechas da janela fechada.


Um comentário:

Diogo Paganella Pelizzari disse...

Olá, eu gostaria de enviar saudações ao Roni Paganella. Ele é primo de minha mãe e na época (aprox. 6 anos)estivemos visitando ele em Brasília. Ele é filho de Gentil Paganella irmão de meu avô Fiorenzo Paganella.

Tudo de bom para vocês e suas máquinas fotográficas. Obrigado desde já.